Eleições do CFP: fanatismo religioso e o espantalho político



Nessas eleições do CFP uma coisa que está chamando atenção é a polarização que o tema do fanatismo religioso trouxe ao debate: mas não se engane se você pensa que somente a chapa da “cura gay” é aquela que apresenta traços de fanatismo religioso, tem outra no debate que talvez você ainda não tenha percebido.

Eu sou um pesquisador de psicologia da religião há pelo menos meia década, e para quem nunca ouviu falar disso, psicologia da religião é o ramo da psicologia que investiga a forma como os indivíduos formam e expressam as suas crenças, enquanto elementos psicológicos. E enquanto pesquisador, uma das coisas que aprendi é que não é porque um sujeito possui uma crença religiosa que ele é fanático – existem muitas pessoas que conseguem ter uma religiosidade saudável e sem conflitos com a sua profissão, coisa que está cada vez mais difícil haja vista a crescente dificuldade interpretativa de alguns grupos de psicólogos hoje no país.

O fanatismo religioso tem dois elementos centrais, que julgo importante compartilhar aqui: o primeiro deles é o da rigidez psíquica, onde os indivíduos que sofrem deste mal raramente conseguem flexibilizar suas ideias, opiniões, pontos de vista, se colocar no lugar do outro ou exercitar a autocrítica. E o segundo ponto, muitas vezes decorrente do primeiro, é o da intolerância às diferenças – eles crivam todos pela sua própria medida e querem nivelar a todos, onde a diferença é vista como algo que precisa ser combatido para gerar uma sociedade de iguais.

Desta forma, infelizmente, para que combatamos o produto do fanatismo religioso que é a intolerância, devemos nós mesmos fazer um exercício complicado e paradoxal de ter certo nível de paciência para nós mesmos tolerarmos algum grau de rigidez mental advinda do outro, e que se traveste de discursos em defesa de uma causa: de um lado pode ser “em defesa da real família tradicional” ou do outro pode ser “para erradicar os extremistas”. NÃO SE ILUDAM: sempre haverá radicalismos, mas a questão em si é em como combatê-lo.

Algumas pessoas advogarão a tese do Paradoxo da Tolerância de Popper, que diz que a tolerância ilimitada levará, por fim, ao desaparecimento da própria tolerância... Mas veja, não é esta a proposta, a tolerância não deve ser ILIMITADA, mas devemos aprender a não combater fogo com fogo, por sua vez! Usar de intolerância para com o ponto de vista do outro, combatendo-o com extrema ferocidade e pintando-o como o pior vilão possível (isso se chama “Framing”, ou seja, enquadrar o outro em uma estrutura discursiva e apelar para ela sempre) nem sempre é a melhor opção – você acaba fortalecendo-o se não fizer isso direito.

E o que ocorre é que a chapa que está no poder e quer reeleição, vamos dar nomes aos bois (chapa 21), por sua incompetência em se comunicar com 70% da categoria de psicólogos que estão pouco se importando com o CFP, porque já se cansaram de não serem escutados, viu recentemente a oportunidade de perder o trono por um motivo interessante: a pulverização dos votos (diante de 5 chapas inscritas) e diante de um inimigo que tem o poder de abocanhar os votos de alguns indecisos - a insatisfação.

Pois é sobre isso que quer falar: O PODER DA INSATISFAÇÃO! Ele é extremamente decisório neste processo eleitoral, haja vista que pela primeira vez em décadas, existem 5 chapas concorrendo ao CFP, e cada uma possui características interessantes e diferentes: atendendo a diversos gostos. E uma delas, a chapa 24, por suas próprias limitações advindas da rigidez psíquica, interpretando mal a própria legislação do CFP, como por exemplo, a Resolução 001/1999, acaba por propagar distorções perceptivas para um público na psicologia que, ou é conservador e não aguenta mais ver a agenda pseudo-progressista do CFP, que parece mais a agenda de um certo partido de esquerda (que não vou citar o nome para deixá-lo em sua curiosidade), ou porque realmente não entendeu que não se trata de uma luta romântica do "bem contra o mal". Mas enfim, vou deixar isso de lado um pouco e dizer do que se trata o espantalho.

Existe uma técnica em Psicologia Política onde um candidato com medo de perder tenta levantar um espantalho, ou seja, criar um inimigo imaginário, com potencial poder destrutivo para tentar criar uma justificativa para acirrar os ânimos da militância. O problema é que, depois de insuflar o imaginário popular na tentativa de arrebanhar pessoas para a sua causa do potencial risco destrutivo, ocorre um efeito colateral: o espantalho realmente cresce e se fortalece.

Infelizmente é o que está acontecendo: uma chapa que deteve a hegemonia do CFP por décadas, vendo que tinha possibilidade de perder por pulverização do eleitorado e pelas decisões erradas de gestão que tomou, viu no poder da insatisfação a possibilidade de perder, e ai criou um espantalho para reunir mais pessoas – mas o problema é que a chapa contrária acaba ganhando publicidade extra! Vejam só: Um monte de gente vai nas postagens da chapa da “cura gay” militar contra eles, falar que “essa chapa nunca”, e que “não passarão”, etc, e o que ocorre? A parcela desavisada da população que já detesta o CFP acaba percebendo a visibilidade desta chapa espantalho e começa a acompanhar eles, ganhando esta, projeção.

Assim, a chapa que se diz “defensora dos direitos humanos” acaba fortalecendo a chapa da “cura gay” – É o tolo brigando contra o espantalho... e basta ver: olhem o vídeo de apresentação da chapa da “cura gay”, eles tem dificuldade até de articular o pensamento, tem um lapso argumentativo violento e nem sabem as implicações teóricas dos termos que usam, como por exemplo “ideologia”, e etc.

Enfim, não estou dizendo que o fanatismo religioso não deve ser combatido, deve ser sim, mas deve ser feito da forma adequada, não criando espantalhos – a chapa da “cura gay” não representa necessariamente o pensamento “conservador” (pois sim galerinha, é possível existir um pensamento conservador que seja coerente e que não fira os “direitos humanos”). E só pra cutucar, no final: há fanatismo dos dois lados, porque para quem acompanha um pouco de psicologia da religião sabe que o fanatismo não precisa estar, necessariamente, atrelado à figura de uma divindade sobrenatural extraterrena, mas também pode se apresentar sobre forma de um “ideal político puro e purificador”, assim como fizeram alguns conhecidos da história, como nazistas, fascistas e comunistas... eu ein, se cuidem!

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Sobre o autor:

Murillo Rodrigues dos Santos, psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), com período sanduíche e formação em Terapia de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Mestre em psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (Brasil). Possui formações em gestão, empreendedorismo e políticas (sociais, empresarias e públicas) pela Fundação Getúlio Vargas (Brasil), Fundación Botín (Espanha), Fondattion Finnova (Bélgica), Brown University e Harvard University (EUA). Conselheiro do IX Plenário do Conselho Regional de Psicologia de Goiás. Psicólogo clínico, organizacional e professor. Coordenador e membro fundador do Movimento Avançar a Psicologia. Candidato da Chapa 25 à presidência do Conselho Federal de Psicologia.

Um comentário:

  1. Prezado Murillo:
    Permita-me reproduzir aqui o que postei nos comentários em Manifesto. De cara me sinto agradecido pelo seu texto acima. Guilherme.
    "A Ciência lida com problemas, a Fé lida com mistérios e a política (sic) com o Poder. Considero a Psicologia uma Ciência Natural a ser submetida ao método científico, seus achados e refutações científicas. Peer review/publicação é o "marketing" da Ciência; rituais, celebrações e caridade são o "marketing" da Fé. O "marketing" da política (sic) é a PROPAGANDA, que se torna fórmula básica, monolítica e dogmática entre o comissariado dos CFP/CRPs. Qualquer estudante de Comunicação Social sabe a diferença entre Publicidade e Propaganda e a ferramenta comum "marketing". A PROPAGANDA dos CFP/CRPs está tornando o Psicólogo e a Psicóloga menos avisados em técnicos de Assistência Social (papel do Estado e muitas vezes de nomenclaturas cuja Fé é a base). A minha carteira ostenta o título de quem deu fé a emissão: uma Conselheira PRESIDENTA! Além da deformação do idioma, qualquer um percebe a Propaganda subliminar no documento. Daqui há pouco a psicologia (sic) do comissariado e sua massa de manobra se dissolverá no Serviço Social para a felicidade e ganho de poder desta categoria cujo empregador principal é o Estado e o ideólogo é Gramsci e Habermas, embora prefiro Marcuse por ser mais direto. Guillherme de Souza Lima Brito, MSc, DSc. CRP: CRP04/10295
    CREA: MG-6144/TD
    CFT-BR nº 141668607-0
    CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/8129703041249048"

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