Porque a psicologia no Brasil ainda engatinha e como podemos avançar


A psicologia foi fundada como profissão no Brasil no ano de 1962, institucionalizando-se no ano de 1971 pela criação do Conselho Federal de Psicologia em lei, e da eleição e posse do primeiro plenário em 1973 (Soares, 2010), e avançando com a abertura de diversos cursos, descentralizando a produção científica no país.

Em quase 60 anos de reconhecimento profissional no país é possível perceber que a psicologia avançou em muitos aspectos, mas ao olharmos para o atual quadro que se pinta diante de nossos olhos, psicólogos conectados no século XXI, muito ainda precisa ser feito.

No dia de hoje, 14 de fevereiro de 2019, o Conselho Federal de Psicologia (2019) nos dá o dado de que somos quase 350 mil psicólogos registrados no Brasil, mas a realidade é que, existem muitos outros que nem ao menos se registraram, ou que registraram e desistiram. Podemos especular que a quantidade de psicólogos graduados, mas sem registro no país deve ser de pelo menos mais 350 mil.

Mas como chegamos a este número? Basta olhar a quantidade de psicólogos registrados no Sistema Conselhos de Psicologia e que estão tão insatisfeitos que não se engajam no processo eleitoral: cerca de 53% dos psicólogos aptos a votar nas últimas eleições não se deram ao trabalho de abrir o computador e escolher uma chapa (Conselho Federal de Psicologia, 2016).

E porque isso acontece? Nós acreditamos que as opções que presentes atualmente não representam a MAIORIA DOS PSICÓLGOS DO PAÍS. E não representam porque são MAIS DO MESMO, e não fazem oposição entre si, apenas CONCORREM para o mesmo objetivo: obtenção de poder e privilégios.

As pautas defendidas, por mais importantes que sejam em seus campos, são SEMPRE AS MESMAS, e todas elas obedecem à uma mesma cartilha que, se analisadas em um cenário macro político, estão todas alinhadas com PARTIDOS POLÍTICOS que querem simplesmente aparelhar as autarquias federais do Brasil.

Ao olhar para os personagens que estão alternando no poder de decidir sobre a vida dos psicólogos do país, você verá que GRANDE PARTE DELES está alinhada e filiada a partidos políticos que possuem um péssimo histórico e intenções abjetas, vide uma ex-presidente do CFP que, filiada ao PT, é o maior nome que representa o atual grupo gestor do Conselho Federal de Psicologia.

Enfim... cansamos! Cansamos de gente que se utiliza da psicologia para, descaradamente, enfiar suas ideologias de partidos políticos nas pautas da psicologia... e quando falamos em ideologia, nos referimos em todos os sentidos do termo: tanto no sentido geral, de ser um conjunto de ideias, como no sentido marxista que eles mesmo adoram utilizar, de ser um conjunto de proposições utilizadas para falsear a realidade à serviço da classe “burguesa”...

Apesar de ser um conceito démodé (cafona, brega e chinfrim), burguesia recheia o palavreado dessa turma, sendo esta mesma representante daquilo que condenam: um conjunto de PRIVILEGIADOS! Mas esse privilégio se faz às custas do psicólogo brasileiro! Levantam suas bandeiras, pautas, mas não escutam o profissional. É óbvio que todos possuem direito à ter uma visão de mundo específica, mas o problema é que, infelizmente, a psicologia brasileira passou muito tempo MONOCROMÁTICA: nossa categoria possui muito mais cor! É mais diversa, possui outros pontos de vista!

Qual foi a última vez que o Conselho Federal de Psicologia fez uma discussão séria sobre empregabilidade na psicologia? Qual foi a última vez que os psicólogos clínicos e organizacionais foram escutados ou tiveram eventos com temáticas que atendessem às suas necessidades? Qual foi a última vez que vimos ações enérgicas do CFP e dos CRPs em prol do desenvolvimento da categoria por meio de orientações efetivas?

Infelizmente, o CFP tem deixado de ser Conselho Federal de Psicologia para se transformar no Conselho Federal de Panfletagem... e da pior espécie! E NÃO SE TRATA DE UMA DISCUSSÃO DE ESQUERDA OU DIREITA, se trata de uma discussão de PRA FRENTE OU PRA TRÁS! E NÓS QUEREMOS AVANÇAR!

Nós entendemos que parte da estagnação profissional do Brasil, da falta de oportunidades de trabalho, e da inexistência de uma cultura empreendedora no país se deve a falta de empenho do maior órgão de referência profissional que temos. Se o Conselho Federal de Psicologia se empenhasse política, acadêmica e institucionalmente para a criação de ESTRATÉGIAS DE POSICIONAMENTO DE NOSSA PROFISSÃO, seríamos muito mais requisitados no país, melhoraríamos a percepção social de valor da psicologia e geraríamos mais oportunidades para nossos colegas. É por isso que a psicologia engatinha no Brasil e precisa crescer, avançar!

Por isso, criamos um movimento que quer defender outro ponto de vista: uma psicologia que escute os psicólogos, que desburocratize o sistema, que modernize a gestão dos Conselhos de Psicologia, que dê liberdade para o profissional trabalhar, que oriente a categoria de forma efetiva, melhore a transparência da gestão dos recursos públicos, e CUJO PARTIDO SEJA A PSICOLOGIA! Uma psicologia para os psicólogos, e não para os partidos políticos! E que fique claro: NÓS NOS POSICIONAMOS PELA LIBERDADE! Pelo direito do psicólogo ser autônomo, empreendedor, pela transversalidade política, mas acima de tudo – ser contra os radicalismos e a antilógica!

Por estes motivos, tomamos a iniciativa, arregaçamos as mangas, e fomos pra luta, porque estamos cansados de correr em círculos, por isso, hoje, o nosso grito de guerra é: VAMOS AVANÇAR A PSICOLOGIA!

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Referências
Conselho Federal de Psicologia (2016). Resultado final – Eleições do Sistema Conselhos de Psicologia. Extraído em 14 de fevereiro de 2019, do site: https://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2016/09/Resultado-final-Elei%C3%A7%C3%B5es-2016.pdf

Conselho Federal de Psicologia (2019). A psicologia brasileira apresentada em números. Extraído em 14 de fevereiro de 2019, do site: http://www2.cfp.org.br/infografico/quantos-somos/

Soares, A. R. (2010). A psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, 30(nº. esp)., 8-41.


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Sobre o autor
Murillo Rodrigues dos Santos, psicólogo (CRP 09/9447) graduado pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (Brasil), com período sanduíche e formação em Terapia de Casais e Famílias pela Universidad Católica del Norte (Chile). Mestre em psicologia pela Universidade Federal de Goiás (Brasil). Doutorando em Psicologia Clínica e Cultura pela Universidade de Brasília (Brasil). Possui formações em gestão, empreendedorismo e políticas (sociais, empresarias e públicas) pela Fundação Getúlio Vargas (Brasil), Fundación Botín (Espanha), Fondattion Finnova (Bélgica), Brown University e Harvard University (EUA). Conselheiro do IX Plenário do Conselho Regional de Psicologia de Goiás. Psicólogo clínico, organizacional e professor. Coordenador e membro fundador do Movimento Avançar a Psicologia.

2 comentários:

  1. Gostaria de incluir uma proposta. Há anos voto nulo e não sabia do alto índice de abstenção. Tenho para mim, que eleições obrigatórias são instrumentos de ditaduras e não de democracias. Concordo de os conselhos (assim como os sindicatos) falam mais de questões políticas do que de questões relacionados a empregabilidade, valorização do profissional ( só precisamos olhar para os salários que são oferecidos em concursos e tabelas para terceirização dos serviços públicos). Não podemos fazer da nossa profissão um serviço voluntário e passar a procurar o sustento em outros oportunidades, lembrando que o acesso aos serviços dos psicólogos ainda é muito restrito, principalmente para a população de baixo poder aquisitivo.

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  2. Muito esclarecedor o seu artigo e concordo que precisamos inovar. Acho que tudo na psicologia precisa ser apartidária não só de partidos políticos como também de religiões e outros grupamentos.
    Vejo também um outro problema que considero grave e acho que o CFP deveria intervir: Na pós-graduação, os cursos são abertos para qualquer formação e não apenas para profissionais da saúde. Acho isso muito grave e já participei de um nesse molde. A sala virava um fórum de julgamento sobre certos comportamentos. Nesse lugar nem todos os professores eram Psicólogos, o que agravava ainda mais a situação. Não dá para ajudar alguém em sua problemática se consideramos o seu comportamento perverso, ou inadequado ou pecaminoso. Enfim, acho que o não "partidarismo" é absolutamente necessário para que a Psicologia aconteça para transformar e respeitar a diversidade. E não acho que outros profissionais estejam habilitados a cuidar dos outros sem que tenha absorvido os princípios básicos desta profissão. Fica aí uma ideia para analisarem se forem a chapa escolhida: Determinar que só profissionais da saúde possam fazer cursos de pós-graduação na Psicologia.

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